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Este é o 43º artigo de 46 posts da série Entre Homens e Lobos.

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– Lorna? – Dareon chamou, algumas horas após o tumulto se aquietar. – Ainda há uma coisa que me preocupa…

Lorna Crowley suspirou, cansada, antes de responder.

– É sobre a Vila, não é? A cidade dos aldeões resgatados?

Dareon assentiu.

– Nós os resgatamos e eles estão bem, isso é ótimo – disse ele. – Mas e a tal Vila da Pedra Incandescente? Ainda está ocupada? Vamos ficar aqui olhando os mortos-vivos tomarem conta de cada pedaço de Guilnéas?

Como se já soubesse que a dúvida surgiria em algum momento, Lorna sentou-se sobre uma pilha de caixotes e cruzou as mãos no colo, como se estivesse se preparando para dar uma notícia muito ruim a uma criança.

– Sim – começou ela –, a cidade ainda está ocupada pelos Renegados.

Dareon impacientou-se.

­– Certo – disse ele. – E então?

– Ficamos sabendo que coisas… estranhas estão sendo feitas por lá – Lorna explicou lentamente. – Na realidade, não sabemos com quem exatamente estamos lidando.

– Lorna, quer me dizer de uma vez o que está acontecendo? – pediu Dareon num tom um tanto mais alto, cruzando os braços.

Shh, não quero que os aldeões fiquem mais alarmados do que já estão! – ela olhou para os lados, certificando-se de que ninguém os ouvia. – Há dois líderes dos Renegados montando acampamento na Vila. Um deles, o executor Cornélio, é conhecido por sua crueldade sem limites. E o outro…

Lorna parou de falar como se não tivesse forças para continuar.

– O que tem o outro? – Dareon incentivou-a. – Diga logo…

– O outro é conhecido por Valnov, o Louco – disse ela, encarando as próprias mãos. – É um “cientista” que… Que conduz experiências desumanas com aldeões velhos demais para trabalhar nas minas.

Lorna terminou de contar o que sabia e ficou muito quieta. Também sem palavras, Dareon fitava o chão, deixando a informação tomar forma em seu cérebro. Sentia as têmporas palpitarem e, de repente, percebeu que tinha as patas tão cerradas que suas garras se enterravam em ambas as palmas enquanto seus braços tremiam.

– Eu vou até lá – murmurou.

– O que foi que disse? – Lorna ergueu os olhos, assustada.

– Eu disse… – Dareon respirou profundamente, tentando afastar o incômodo que a temperatura de seu corpo lhe causava – … que vou até lá. Agora.

Assustada, Lorna levantou-se num pulo.

– É claro que não! – disse ela numa voz estridente e nervosa. – Vamos montar um plano, chamar os aldeões para ajudar! Quem sabe em alguns dias…

– Não quero ir em alguns dias, quero ir agora – Dareon retrucou. – Lorna, eles estão isolados do restante do exército. É nossa chance de expulsá-los daqui! Não podemos esperar mais alguns dias… Até porque…

O pensamento de que os aldeões restantes – se é que ainda havia algum – estariam sofrendo nas mãos daquelas criaturas fazia o sangue de Dareon ferver. Tanta coisa se passava em sua mente que sequer conseguia falar sobre aquilo, mas Lorna pareceu entender o que ele queria dizer.

– Eu sei – disse ela. – Não tenho dormido por conta disso, só imagino que coisas… Que coisas horrorosas…

Ela cobriu o rosto com as mãos e Dareon a apoiou pelos ombros.

– Eu vou até lá agora – falou calmamente. – Nem que seja só para descobrir alguma brecha ou para observar como estão agindo. Mas não posso levar aldeões comigo, Lorna. Quem sabe qual o cenário que encontraremos lá? É… Era a casa deles, e pode ser que seus familiares ainda estejam lá, servindo de… de cobaia!

Lorna tremeu, o rosto ainda oculto pelas mãos.

– Não se preocupe, não pretendo me meter em brigas que não posso vencer – Dareon continuou. – Se precisar, voltarei para buscar reforços. E, como você mesma diz, minha habilidade de evasão é incrível!

– Você não pode carregar o peso do mundo nos ombros, Dareon – murmurou Lorna. – Há quantos dias não dorme? Não come?

Dareon deu de ombros, se afastando alguns passos.

– Isso fica para quando não existirem mais velhinhos sendo cortados ao meio por um maluco morto-vivo – respondeu. – Lorna, nós não… Não aceitamos facínoras! Se deixarmos um deles a solta hoje, quem sabe quantos existirão amanhã?

Vencida, Lorna desamarrotou o vestido, limpou o rosto e vestiu novamente sua constante expressão forte e desafiadora.

– Está bem – disse ela. – Mas aguarde aí um instante antes de ir.

Um Dareon muito confuso permaneceu parado no mesmo lugar durante cinco minutos, até que Lorna retornou da cozinha empurrando um pequeno carrinho de madeira que carregava a carne crua de metade de um veado, embalado em um saco transparente e ensanguentado. Para Dareon, parecia uma delícia.

– Toma isso daqui – disse ela em sua voz arbitrária, e Dareon não teve alternativa senão erguer aquele enorme pacote nos braços. – E coma.

Dareon sorriu e murmurou um “obrigado” enquanto enfiava os dentes na carne dura e fibrosa. Antes que pudesse sair, Lorna aproximou-se novamente e apertou seu braço com carinho.

– Tome cuidado – pediu ela. – E volte o mais rápido possível se precisar de ajuda, por favor…

Dareon revirou os olhos.

– Lorna – disse ele –, a quantas missões eu já fui enviado?

– Várias – Lorna respondeu, hesitante.

– E de quantas eu voltei?

Lorna sorriu.

– De todas.