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Este é o 9º artigo de 46 posts da série Entre Homens e Lobos.

Boa leitura!


Dareon sentiu a presença antes de enxergá-la. Virou-se violentamente para trás, seguindo com o faro o cheiro invasor que tomara conta do ar, sobrepondo-se ao perfume da chuva, do mar e da terra molhada. Ouviu um barulho anormal soar de trás da cabana, seguido pelo farfalhar de folhas. Escutou ainda o som de plantas sendo amassadas por passos, e, conforme o ruído se aproximava, sentia também o odor se fortificando. Era cheiro de morte.

Rosnou demoradamente, mostrando os dentes de forma ameaçadora para a criatura que corria em sua direção, trazendo na mão uma faca idêntica à que encontrava-se fincada nas costelas do vigia, caído logo ao lado.

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O morto-vivo resmungou algo antes de brandir a lâmina em sua direção, mas Dareon não prestou atenção. Precisava manter a concentração na luta iminente, procurando um ponto fraco no inimigo, qualquer coisa que pudesse fazer com que ficasse em desvantagem. Não aguentou apenas desviar dos golpes por muito tempo, logo sentiu a necessidade irresistível de atacar.

Saltou para cima do morto-vivo, as garras na direção de seu rosto. Rosnou forte e derrubou-o na primeira investida, os dentes fechados sobre o ombro da criatura. Viu quando a faca voou para longe e assistiu ao Renegado debater-se no chão sob o peso de seu corpo, até que finalmente parou de lutar.

Dareon apoiou-se nas patas dianteiras e ergueu-se com cautela, sentindo-se cansado pelo esforço. Encarou o corpo caído na terra e comparou seu tamanho ao dele, notando que a diferença era enorme. Ainda não tinha noção de toda a altura que havia adquirido depois da transformação, mas agora percebia que a situação era quase ridícula. Aquele morto-vivo jamais conseguiria vencer uma luta daquelas, ainda mais com uma arma tão frágil quanto a que trouxera consigo.

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Saiu correndo, deixando tudo para trás: caixas, essência de mandrágora e corpos. Entrou novamente na vila fazendo estardalhaço, pisando forte no chão de pedra, assustando alguns transeuntes, que o encaravam e se afastavam, preocupados. Entrou novamente na estalagem em que Krennan Aranas e Gwen estavam reunidos e apontou na direção da cabana com a garra suja de barro.

– Renegados – conseguiu dizer com dificuldade.

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Ninguém se moveu, então Dareon chacoalhou os braços e gritou, com a voz mais humana que era capaz de emitir:

Invasão! – encarou Gwen. – RENEGADOS!

– Renegados! – Gwen Armstead arregalou os olhos em compreensão e levou as mãos à boca. – Rápido, precisamos organizar a defesa! Onde eles estão, Dareon?

– Navios – respondeu. Gwen franziu a testa mais uma vez, tentando decifrar a palavra latida. – No mar! Navios!

– Oh – ela chacoalhou a cabeça –, entendi. Mas… como é possível? Os recifes sempre nos protegeram de ataques marítimos. Os Renegados devem ter passado por alguma brecha. Dareon, depressa, preciso que você distraia os atacantes enquanto eu preparo o restante da milícia. Acho até que estou conseguindo ouvir o Príncipe e alguns soldados lutando na praia… Fale com Liam e veja se consegue ajudar em alguma coisa. Ah, e cuide para que ele não seja morto. Tenho medo que ele fique ousado demais nesse estado em que está.

– Hum, Dareon – chamou Aranas. – Acho que você pode ficar com suas armas de volta…

O químico correu até um canto da salinha e voltou arrastando um machado em uma das mãos, enquanto equilibrava uma adaga prateada na outra. Entregou tudo a Dareon e então lançou-lhe um olhar zeloso.

– Só… tome cuidado – sussurrou, para que ninguém mais o ouvisse.

Dareon assentiu prontamente e prendeu as armas na cintura. Acenou com a cabeça para Gwen e saiu novamente da estalagem, correndo em direção à praia. Avistou as figuras dos invasores de longe, aglomerando-se no entorno do Refúgio do Ocaso, vez ou outra batalhando contra soldados de Guilnéas.

Olhava em todas as direções em busca do Príncipe, procurando pela figura majestosa de seu cavalo branco, no qual sempre montava enquanto brandia sua enorme espada. O Liam que encontrou após algum tempo, no entanto, parecia bem diferente daquele que conhecera.

– Ei! – gritou o Príncipe quando o avistou. – É você!

Dareon examinou-o antes de responder, tentando entender o motivo pelo qual Liam Greymane estava sem camisa, parecendo um tanto alegre demais, rodeado por mortos-vivos enquanto os combatia com um pedaço quebrado de garrafa de vidro.

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– Dareon! – Liam acenou novamente. – Oi! Caramba, pensei que nunca mais ia te ver – ele acertou a cabeça de um Renegado com o pedaço de vidro e então enxugou a testa com as costas da mão. – Achei que estivesse sonhando com os velhos tempos quando ouvi sua voz… Por falar em voz, não está muito treinada ainda, não é? Mas dá para reconhecer.

Velhos tempos? Dareon encarou o jovem Príncipe, notando a espessa barba que agora cobria seu rosto. Percebeu que, definitivamente, não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde a batalha na Catedral. Também não tinha certeza se gostaria de saber.

Liam avançava contra os Renegados com a ajuda de soldados de Guilnéas. Ainda meio acanhado, Dareon tentou ajudar no que podia, mas ainda sentia-se tão perdido que começou a pensar que estava atrapalhando-os.

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– Não consegui defender meu povo em Guilnéas, Dareon – disse o Príncipe assim que se livrou da última leva de mortos-vivos que estivera combatendo. – Mas parece que o destino me deu uma segunda chance. Não posso fracassar de novo, agora é matar ou morrer.

Dareon parou ao seu lado, procurando algo para dizer. Outros grupos de soldados continuavam a lutar com os invasores, que pareciam se multiplicar cada vez mais.

Mantenha a formação, soldado! – Liam ordenou ao guarda que o ajudava, depois virou-se para Dareon e pousou a mão em seu ombro. – Dareon, eu não sei se você está vivo ou morto, se é humano ou worgen… Nem sei se estou realmente acordado. Mas eu confio em você. Vamos matar muitos desses Renegados sem mãe!

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Dareon esboçou um sorriso e correu ao lado de Liam em direção à batalha. Lutaram lado a lado até que finalmente a área começou a se esvaziar, então o Príncipe apoiou-se num tronco de árvore e chamou-o para perto.

– Obrigado – disse-lhe. – Pela ajuda e… por tudo. Acho que vou ter que me esforçar para não atirar em você, mas o Krennan já nos explicou tudo – Liam olhou-o seriamente e então deu risada. – É brincadeira. Eu e você, Dareon… nós formamos uma bela dupla. É bom tê-lo de volta. Agora… Bem, nós assumimos daqui por diante, vamos continuar aguentando firme. Volte e fale com Gwen, conte à ela como está a situação. Esta é apenas uma pequena parte das tropas dos Renegados. Precisamos agir rapidamente. Hum, talvez… talvez seja possível atacar o exército dos Renegados no ponto de desembarque! Bem, fale com a prefeita, ela provavelmente já deve ter um plano.

Dareon assentiu com a cabeça e ajudou o amigo a se levantar.

– Até mais – despediu-se da melhor forma que podia, e então caminhou novamente na direção da pequena vila.

Gwen, a prefeita, continuava na estalagem, sentada à mesa, conversando com Aranas. Quando viu Dareon entrar, levantou-se prontamente e correu em sua direção, ansiosa para receber informações.

– Vá com calma – disse ela –, e me conte o que está acontecendo por lá.

Dareon suspirou.

– Muitos Renegados – começou. Gwen assentiu e ele prosseguiu o relatório. – Liam está comandando os soldados. Conseguimos abater boa parte, mas ainda há mais. É preciso atacar o exército dos Renegados no ponto de desembarque.

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– Oh! Foi Liam quem deu a ideia? – ela sorriu. – As notícias são ótimas, então. Já enviei o restante da milícia à costa para um ataque direto contra os Renegados. É Lorde Godfrey quem está liderando a base perto do desembarque. Talvez você possa nos ajudar a detê-los… Bem, eu soube que o Godfrey requisitou para o esforço de guerra o abrigo contra tempestades da Fazenda dos Allen. Fica um pouco distante, à oeste daqui. Procure-o lá.

Dareon seguiu a estrada do Refúgio do Ocaso na direção oeste, esperando que não fosse tão longe quanto imaginava. Andou sem rumo durante um bom tempo, uma vez que a chuva caía com força e as sombras do crepúsculo já cobriam boa parte de Guilnéas.

Já começava a achar que tinha se perdido quando avistou os contornos da Fazenda ao longe, ainda embaçados àquela distância. Dareon correu até lá e se deparou com um cercado que continha alguns cavalos e umas poucas ovelhas pastando, ao lado de pequenas estruturas de madeira de aparência envelhecida e uma modesta casinha de concreto.

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– WORGEN! – gritou uma voz, e Dareon rapidamente virou-se, procurando sua fonte. – WORGEN! PREPARAR!

Finalmente conseguiu enxergar dois soldados, ladeados por mastins, preparando suas carabinas e apontando em sua direção.

– Não! – respondeu Dareon, colocando as mãos para cima. – Sou amigo! Amigo! Gwen me mandou vir até aqui!

Os soldados se entreolharam.

– A prefeita? – perguntou um deles. – E o que você quer?

– Falar com Lorde Godfrey – Dareon aproximou-se cautelosamente, caminhando devagar, sem fazer nenhum movimento brusco.

Os soldados abaixaram as armas e se posicionaram lado a lado. Puxaram as portas de um porão no chão, cada um para um lado, e um deles apontou para as escadas com o queixo.

– Está aí dentro – murmurou, e deixou que Dareon passasse.

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Enquanto descia, ouviu os vigias reclamando sobre o pensamento liberal em relação aos worgens. Revirou os olhos, cansado, e adentrou o porão dos Allen. Era um lugar espaçoso, porém lúgubre, que no momento abrigava Lorde Vincent Godfrey e mais alguns combatentes de Guilnéas.

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O grupo alarmou-se quando viu Dareon, mas Godfrey adiantou-se:

– Olha só você. De novo. Espero que os nossos vigias não tenham tentado te matar – Godfrey deu uma risadinha. – Mas provavelmente tentaram. Enfim, pode se aproximar.

Dareon andou até ele e cumprimentou os outros guilneanos com um aceno de cabeça.

– O que está acontecendo? – perguntou.

– Os Renegados vieram com força total. Nossos homens mal são suficientes para detê-los.

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Lorde Godfrey pousou a mão levemente no braço de Dareon e olhou-o seriamente.

– Sem ressentimentos, Dareon – disse. – Você pode até ser uma máquina assassina, mas vai ter que ficar do nosso lado por enquanto.